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A inspiração espiritual na criação artística
Para Cristina da Costa Pereira " Como me descobri artista? Não me recordo da vida sem a presença da Arte, no meu caso, da Dança. Aos três anos de idade fui levada por meus pais ao Theatro Municipal do Rio para assistir ao ballet “Coppélia”, estrelado por Tamara Capeller. Viver aquela situação, produzir e reproduzir em meu próprio corpo
aquela imagem e tantas outras se tornou, a partir de então, uma obsessão. Caminhei, voei, obstinadamente, atrás da minha vocação. Jamais tive dúvidas. Casei-me com bailarino. É diferente, é incomum; envolve sensibilidade e delicadeza. Se existe outra encarnação acho que nela fui bailarina também. Muitas vezes tive a impressão de que já dançara ballets que nunca vira antes; estranho, era como se meu corpo e minha mente guardassem uma memória de outro tempo, de outra dimensão. Não sei se isso é crível.
Parece “viagem” mas é verdade. Não estou me referindo a um personagem mas a mim mesma.
Conceituar a inspiração no processo de criação O que é a inspiração para um bailarino? Não sei. Talvez uma centelha desencadeada pelo processo de interação entre o coreógrafo e o bailarino envolvendo a música ou o ritmo, a plasticidade dos corpos, às vezes o tema, as formas, a expressão
de um rosto... É tão absolutamente paradoxal. Por um lado nos carrega para longe da razão, razão entendida como tempo, cansaço, fome, sede, dor, conveniências; distância da realidade que envolve a sensação de tato, que aproxima a pele de quem dança, com quem se dança, e de quem cria; que faz com que se misturem suores e se estabeleça uma química que beira um momento de paixão; por outro nos coloca conscientes de tudo o que está em volta, das experiências com os movimentos, dos limites a serem superados, do espaço
a ser preenchido, das distâncias a serem calculadas, do momento musical exato de recomeçar; da rejeição física do companheiro, de seu cheiro. Nada mais lúcido e, ao mesmo tempo tão transcendental quanto o processo de criação da arte da dança. Por que? Quem sabe porque não é solitário, é uma comunhão, é uma troca. E é único; nunca se repete; poderá se revelar mais ou menos brilhante, mas nunca será igual. Sempre algo se perderá e algo se acrescentará todos os dias, em ensaios ou espetáculos. Acho que minha
inspiração final começava no momento da chegada ao camarim nos dias de espetáculo, no acender as fortes luzes que rodeiam os espelhos, no olhar para esse espelho com fotos de filho e marido, na toalha atrás da cadeira, na liseuse de minha avó que me cobria e com a qual me maquiava, nos sapatos de ponta dispostos de frente para mim sobre a bancada. É ritualístico, místico. É uma arte mágica. Eu a amo...
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